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segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Buscando a Verdade

Após um breve recesso durante o mês de julho, o Cine Vídeo UEA - Cosme Alves Netto tem o prazer de anunciar que retomará normalmente suas atividades em agosto com mais um ciclo de produções cinematográficas. Trata-se do Ciclo do Cinema Argentino. Portanto, exibiremos:  A História Oficial (1985), de Luis Puenzo; Um Conto Chinês (2011), de Sebastián Borensztein, e O Segredo dos Seus Olhos (2009), de Juan José Campanella. Objetivamos, assim, oferecer um maior espaço a produções latino-americanas como as produzidas na Argentina.

O filme de abertura do ciclo, A História Oficial, foi o primeiro argentino a vencer o Oscar de melhor filme estrangeiro. Luis Puenzo nos traz, então, a históra de Alícia, uma professora de história que vive na Buenos Aires de 1985, após a severa ditadura militar argentina. Em meio a um país em reconstrução, Alícia passa a desconfiar das verdadeiras origens de sua filha, ao mesmo tempo em que descobre os horrores aos quais eram submetidos os opositores políticos do regime ditatorial. Seu drama familiar parece, portanto, estar inserido em uma esfera muito além do que podia imaginar.

Essa esfera política a que se reporta o filme obviamente não ocupa o plano principal da obra de Puenzo. No entanto, ela permeia a história da protagonista de forma tão significante que não se pode ignorar o panorama histórico-político no qual a trama se insere. O filme chega a mostrar a famosa manifestação das Mães da Praça de Maio, protesto que clamava ao governo que os desaparecidos durante a ditadura fossem devolvidaos as suas famílias. Embora não tenha participado da demonstração, Alícia lança seu agudo olhar de conhecedora da história sobre os eventos que se desenrolam diante de si, assim levando junto consigo o espectador na sua jornada de revelação de uma das páginas mais dolorosas do passado argentino.


Talvez o maior mérito de A História Oficial seja justamente esse. Sente-se que a busca de Alícia é a própria busca do povo argentino por reunir os pedaços e remediar as tragédias deixados pela severa ditadura militar pela qual o país passou. Muito longe de revelar graficamente o horror do totalitarismo, Luis Puenzo optou por um caminho mais sutil e decidiu mostrar de que forma duros regimes como aquele podem interferir tão fortemente no cotidiano de cada cidadão: fragilizando-os no seio de sua própria família.

terça-feira, 22 de maio de 2012

A Visita da Banda

Neste mês de maio o Cine Vídeo UEA - Cosme Alves Netto vem realizando mais um ciclo de filmes, intitulado Oriente-se. Este tem o objetivo de dar maior visibilidade a obras provenientes do Oriente Médio ou até mesmo apresentá-las a nós espectadores ocidentais. Os primeiros filmes exibidos nas semanas iniciais do mês foram, respectivamente, A Separação (2011), de Asghar Farhadi, e Gosto de Cereja (1997), de Abbas Kiarostami. Na semana passada não realizamos nenhuma exibição de acordo com este ciclo, pois apoiamos o III Colóquio Internacional Poéticas do Imaginário com a mostra de documentários acerca da Amazônia. O evento aconteceu na UEA nos dias 16, 17 e 18. Nesta quinta-feira, no entanto, retornamos com a nossa programação normal ao exibirmos A Banda (2007), do israelense Eran Kolirin.

O longa trata da chegada a Israel de uma pequena banda da polícia egípcia, convidada para tocar em um evento promovido pelas autoridades do Egito no local. Após uma falha de comunicação, contudo, o grupo de músicos acaba chegando a uma pequena cidade no meio do deserto, onde as circunstâncias os forçam a lá pernoitarem. Assim, conhecem alguns dos moradores locais e se deparam com as diferentes vidas daqueles cidadãos israelenses. A Banda era a escolha inicial de Israel para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro na época de seu lançamento, mas foi rejeitado pela Academia por ter mais da metade dos seus diálogos em língua inglesa. Ainda assim, o filme recebeu diversos prêmios em Israel e em outros países, tanto como melhor filme, quanto melhor ator, atriz, diretor, entre outros.

Eran Kolirin, através de sequências que mais parecem fotografias, nos coloca diante de duas culturas que se encontram no inusitado cenário de uma cidadezinha no meio do deserto de Negev. O que vemos não é exatamente um choque de culturas, pois não surgem de fato grandes impasses dessa aproximação. O que há é um olhar para o outro e ultimamente um olhar para o eu. Isso se evidencia na ótima interpretação de Ronit Elkabetz, na personagem de Dina, a dona do restaurante que acolhe dois dos membros da banda. Dina, que vive só em seu apartamento, dialoga com o maestro da banda e revela muitas de suas frustrações e aspirações a este reservado estrangeiro. De forma análoga, os outros membros da banda também tocam a vida dos moradores locais de formas que nem imaginam e vice-versa.


A Banda torna-se, assim, uma valiosa obra que lida com aspectos muito atuais da maneira em que o estar no mundo se dá hoje. Seu valor encontra-se justamente nesse encontro de realidades distintas que podem ter influências positivas ou simplesmente despertar uma nova forma de enxergar a nossa própria realidade de um ponto de vista diferente. Portanto, não deixe de prestigiar uma obra tão instigante quanto essa nesta quinta-feira, 24, às 18h na Sala Maria de Nazareth Xavier, na UEA - Escola Normal Superior, Avenida Djalma Batista, 2470. Contamos com a sua presença!

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O Ontem no Hoje

O mês de abril marcou o segundo ciclo de exibições do Cine Vídeo Cosme Alves Netto. Nas três semanas iniciais do mês foram exibidos: Cisne Negro, de Darren Aronofsky; Melancolia, de Lars Von Trier; e A Pele que Habito, de Pedro Almodóvar. Todos esses títulos se inserem no Ciclo de Destaques de 2011, no qual exibimos algumas das obras cinematográficas mais elogiadas do ano passado. E na semana passada, para fechar a etapa de abril, o filme escolhido foi Meia-noite em Paris, de Woody Allen.

Nesta obra de 2011, o diretor americano continua sua tendência mais recente ao deixar os cenários de Nova Iorque e partir para a Europa. E depois de gravar em Londres e Barcelona, é chegada a vez  de Paris. Gil Pender (Owen Wilson), um roteirista bem-sucedido de Hollywood, e sua noiva, Inez (Rachel McAdams), estão de férias na capital parisiense com os pais desta, que estão lá a negócios. Gil se apaixona pela cidade e diz abertamente a uma exasperada Inez que adoraria lá morar. Seu deslumbre apenas se intensifica quando, numa noite regada a muito vinho, ele se encontra numa estranha situação em que a sua amada Paris dos anos 20 ganha vida e alguns de seus ídolos, como Ernest Hemingway e F. Scott Fitzgerald, lhe aparecem em carne e osso. Por fim, essa inesperada experiência acaba pondo em cheque tudo que Gil tinha em vista para seu futuro.

Woody Allen nos traz, assim, a ideia com a qual às vezes nos pegamos brincando: como seria  nossa vida caso houvéssemos nascido em outra época? Vicariamente, através do protagonista, temos um vislumbre do que foi o forte movimento artístico vivenciado na capital da França no início do século XX, sob as mais diversas vanguardas. Nesse sentido, o filme conta com um excepcional elenco de apoio, entre os quais constam Kathy Bates como Gertrude Stein, Marion Cotillard como Adriana e Adrien Brody como Salvador Dalí. À esse vislumbre contrapõe-se a visão capitalista e pragmática da esposa de Gil, a qual julga irreais as aspirações do marido.


Diante disso, somos postos frente à questão da aparente superioridade do passado. A cada viagem que o personagem principal faz aos anos 20, ele se convence mais ainda que está em uma era de ouro já impossível de ser resgatada pelo século XXI. A arte, as pessoas e o pensamento da época o deslumbram, no entanto, Gil se depara com o desapontamento de que mesmo os habitantes daquele tempo têm suas reservas em relação ao suposto apogeu em que vivem. O que fica é a impressão de que ninguém de fato está satisfeito com o seu tempo, mas é ele que nos cabe. Portanto, é com essa reflexão que o Cine Vídeo Cosme Alves Netto encerra o ciclo de abril, agradece a presença de todos que compareceram às sessões e aproveita para deixar o convite para o ciclo de maio, que tratará de produções do Oriente Médio. 

terça-feira, 17 de abril de 2012

Macabro e Sem Gritos

No mês de abril o Cine Vídeo Cosme Alves Netto traz o Ciclo de Destaques de 2011. E após a exibição de obras como Cisne Negro e Melancolia, nesta terceira semana do mês, exibiremos o elogiado longa de Pedro Almodóvar, A Pele Que Habito, vencedor do prêmio de Melhor Filme Estrangeiro segundo a Academia Britânica de Cinema (BAFTA).

O diretor espanhol nos contempla com a história de Robert Ledgard, um renomado médico que realiza experimentos nos quais cultiva uma espécie de pele artificial, por ele batizada de Gal em homenagem a sua esposa, vítima de severas queimaduras. Para a comunidade científica, no entanto, diz que  suas experiências são conduzidas em ratos, mas secretamente o Dr. Ledgard as realiza em uma moça chamada Vera, a qual ele mantém em cativeiro dentro de sua própria residência. A verdadeira história de Vera, contudo, é ainda mais estranha e envolve uma trama familiar típica de Almodóvar.


Segundo o próprio diretor, A Pele que Habito se trata de uma "história de terror sem gritos ou sustos". E certamente o elemento macabro encontra-se presente no desenrolar da trama. Notamos que a nossa percepção do caráter do protagonista se altera ao termos um vislumbre de seu passado através da técnica de flashbacks, sempre presentes nas obras de Almodóvar. O que inicialmente nos parece obstinação por parte do Dr. Ledgard acaba se transformando em uma obsessão vingativa que este leva até as últimas consequências ao procurar por algo a que se ater após as mortes trágicas de seus entes queridos. Essa busca, portanto, tão intensa em sua ira, acaba determinando o destino do médico.




O mais recente longa do cineasta espanhol, assim, além de apresentar todos os aspectos que já o consagraram ao longo de sua carreira - como a fotografia, os cenários, o jogo de cores e os diálogos -, também incorpora novos elementos temáticos que se encaixam com louvor à sua vasta gama de habilidades como contador de histórias. Nesse sentido, incluem-se em A Pele Que Habito questões de éticas da medicina, sexualidade, vingança, ódio e perdão, os quais se misturam e formam entre as personagens uma complexa rede de relações que não podem ser facilmente discernidas, pois já não se é mais possível separar as coisas como se fossem preto e branco. Tratando de problemas de identidade, como sugerido no título, o filme nos prova cabalmente que nada na personalidade humana pode ser simplificado, que o que outrora era ódio pode, por exemplo, tornar-se obsessão inflamada pela paixão. Dessa forma, esta é mais uma obra que merece destaque num ciclo que se propõe a exibir produções que marcaram o ano de 2011. Não perca, nesta quinta-feira, às 18h, na UEA - Escola Normal Superior!

domingo, 15 de abril de 2012

Calma e Caos no Fim do Mundo

Após a estreia de um novo ciclo no dia 4 com Cisne Negro, de Darren Aronofsky, nessa segunda semana de abril tivemos o prazer de realizar a exibição de Melancolia, do cultuado diretor dinamarquês Lars Von Trier. Trata-se do Ciclo de Destaques de 2011, que incluirá também, nas próximas semanas, A Pele que Habito, do espanhol Pedro Almodóvar, e Meia-noite Em Paris, do americano Woody Allen. Portanto, caso você não tenha visto tais obras nos cinemas de Manaus durante o ano passado, o Cine Vídeo UEA felizmente lhes oferece mais uma oportunidade para prestigiá-las.

Melancolia gira em torno de duas irmãs, Justine (Kirsten Dunst) e Claire (Charlotte Gainsbourg). Justine acaba de casar-se, mas claramente se encontra em um profundo estado de depressão, do qual nem seus familiares mais próximos conseguem resgatá-la. Claire, já bem estabelecida em sua vida, é casada e tem um filho. A iminência da passagem de um misterioso planeta pela Terra, no entanto, acaba influenciando diretamente o estado de espírito das duas irmãs, que se preparam de maneiras distintas para o possível fim do nosso planeta.

Diante de desafios como a criação digital de um planeta, a fotografia do longa de Lars Von Trier é um dos aspectos técnicos mais marcantes da obra. Nesse sentido, sua sequência de abertura merece um destaque especial. Nela, dialogando diretamente com a pintura através de uma sucessão de imagens em slow motion extremo, o diretor nos oferece vários vislumbres dos temas a serem tratados em Melancolia, construindo, assim, uma série de quadros mórbidos e simbólicos que mostram os últimos momentos da vida das personagens na Terra. Tudo isso ao som do prelúdio da obra Tristão e Isolda, de Wagner. Após revelar logo no início o final completamente oposto ao happy ending hollywoodiano, Lars Von Trier prossegue, então, com os momentos que o antecederam, dividindo a obra em duas partes, cada uma tratando de uma irmã.


Em entrevista, o diretor dinamarquês conta que a ideia original do filme se deu durante uma sessão de terapia na qual este tratava sua depressão. Segundo seu terapeuta, pessoas melancólicas tendem a agir mais calmamente em situações catastróficas, enquanto pessoas comuns são mais aptas a entrarem em pânico. Tal noção é claramente explorada em Melancolia. A própria estrutura do longa se reflete nesse conceito. A primeira parte, intitulada "Justine", nos mostra uma das protagonistas em depressão mesmo durante um dos eventos mais importantes de sua vida, seu casamento. Em contrapartida, na iminência da colisão entre os planetas, é ela quem mais se mantém serena e racional, ao contrário de sua irmã. Lars Von Trier, portanto, constrói sua história na justaposição dessas visões e conclui o destino de Justine e Claire comprovando sua proposta inicial com uma belíssima cena final. Assim, concluímos a segunda semana do Ciclo de Destaques de 2011 com um longa que não trata do fim do mundo com as explosões e a ficção científica que estamos acostumados a ver, mas de como diferentes pessoas podem reagir de maneiras diferentes em situações de estresse elevado.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Ciclo de Abril: Destaques de 2011

Após termos exibido em março filmes como Cantando Na Chuva e Cinema Paradiso de acordo com o Ciclo do Metacinema, temos o prazer de convidar a todos os alunos, professores e funcionários da UEA, bem como a população manauara em geral, para prestigiarem a abertura de mais um ciclo, que ocorrerá neste mês de abril. Trata-se do Ciclo de Destaques de 2011. O ano passado nos trouxe valiosas adições ao rol de grandes obras cinematográficas, mas muitas delas, infelizmente, não chegaram aos nossos cinemas, ou, se chegaram, passaram pouquíssimo tempo em cartaz. Portanto, para, ao menos tentar, suprir um pouco dessa falta, preparamos a seguinte programação:

- 04/04: Cisne Negro, de Darren Aronofsky;
- 12/04: Melancolia, de Lars Von Trier;
- 19/04: A Pele Que Habito, de Pedro Almodóvar;
- 26/04: Meia-noite em Paris, de Woody Allen.

O filme que hoje será exibido, portanto, é o do diretor americano Darren Aronofsky, Cisne Negro, indicado a cinco categorias do Oscar e vencedor na categoria de Melhor Atriz, pela atuação de Natalie Portman. Embora seja oficialmente de 2010, só chegou ao Brasil no ano passado, por isso foi incluído neste ciclo. O longa nos traz a história de Nina Sayers, uma bailarina de Nova Iorque que é escalada para interpretar as duas personagens principais do famosíssimo O Lago dos Cisnes. Contudo, apesar de ser perfeita para o papel do Cisne Branco, Nina tem muitas dificuldades para lidar com o lado mais obscuro de sua personalidade e, assim, interpretar o Cisne Negro. Um desafio que a princípio porá à prova sua carreira acaba, então, pondo à prova sua própria sanidade.

O filme trabalha com alguns conceitos de obras consagradas como O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, e O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson. Dialogando em parte com o único romance de Wilde, a protagonista, através de sua arte, busca a todo custo a perfeição do belo em suas apresentações, o que a acaba consumindo e ocasionando uma ruptura de valores. De repente, tudo que havia em sua vida - profissão, relacionamentos e família, por exemplo - é diretamente afetado pela sua obsessão por uma personagem tão difícil de interpretar, já que possui uma índole muito diferente da sua. Nesse sentido, temos a relação com o romance de Stevenson, o qual nos oferece um debate entre nossas distintas forças internas, o lado do bem e o lado mal. A todo instante Nina ouve de seu diretor, Thomas (Vincent Cassel), que deve se soltar mais e liberar seu lado mais selvagem e primitivo, o que prova ser uma árdua tarefa para uma mulher que a vida inteira se dedicou ao balé por influência direta de uma mãe ex-bailarina,  carinhosa e rígida, que também, em contrapartida e a todo instante, diz quão meiga sua filha é.

Essa dualidade é, aliás, o tema principal do filme. Em inúmeras cenas podemos perceber a presença de espelhos. Na casa da Nina, nos banheiros, nos camarins e no teatro, esses espelhos representam muito bem a relação da protagonista com seu lado interior mais sombrio e como sua identidade aos poucos desmorona por deixar que ele transpareça. A propósito, esses reflexos não ocorrem apenas em espelhos tradicionais, mas em qualquer superfície refletora, como as portas do metrô ou mesmo o palco do teatro. Cada um desses motivos reforça a ideia do trajeto de uma personagem a quem assistimos sofrer por uma pressão externa e ao mesmo tempo autoimposta. Nesse ponto, o filme é uma verdadeira aula de narrativa psicológica que beira o terror. Em vários momentos nos perguntamos se estamos perdendo o juízo junto com a personagem de Natalie Portman. Com efeitos digitais magnifícos, vemos a transformação dolorosa de uma garota genuinamente meiga para o selvagem e sensual Cisne Negro, culminando em um final surpreendente e catártico.



Por fim, Darren Aronofsky nos põe, em última instância, diante de uma história que trata da nossa relação de amor e ódio para com a arte. Ao mesmo tempo que ama o balé e a rotina dolorosa dos bailarinos, a personagem principal acaba se desconstruindo pela pressão da perfeição e se perdendo, mas também se achando finalmente, no caminho. Processo semelhante ocorre também em outras artes, como na literatura,  pois a linguagem e a língua impossibilitam aos escritores de dizerem tudo que desejam, mas ao mesmo tempo, estes não podem deixar de tentá-lo e isso só é possível através da própria língua. Nossa arte, portanto, torna-se uma descoberta árdua que nos força a dialogar com nossa própria essência e buscar dentro de nós mesmos, a partir de pulsões tão opostas, aquilo que de fato julgamos ser belo. Assim, para ver como esses pólos opostos se dão na vida de Nina Sayers, compareça à Escola Normal Superior, às 18h, e prestigie Cisne Negro. Não perca!

quinta-feira, 29 de março de 2012

Nos Bastidores de um Clássico

Dando continuidade ao Ciclo do Metacinema, durante o qual são exibidas produções que tratam da própria arte do cinema, o Cine Vídeo Cosme Alves Netto tem o prazer de convidar alunos, professores e funcionários da UEA, bem como a população em geral, para assistirem ao filme de 1987 de Paolo e Vittorio Taviani: Bom Dia, Babilônia. A exibição terá entrada franca e ocorrerá nesta quinta-feira, 29, às 18h, na Sala Maria de Nazareth Xavier da Escola Normal Superior, localizada na Avenida Djalma Batista, 2470.

O longa conta a história dos irmãos artesãos Nicola e Andrea Bonanno, que resolvem deixar sua pátria natal, a Itália, para tentar reconstruir o patrimônio da família nos Estados Unidos da América da década de 1910. Depois de vários empregos temporários, a dupla finalmente consegue algum destaque ao construir os sets de filmagem do grande diretor D.W Griffith em Hollywood, o que lhes dá uma nova perspectiva sobre suas vidas numa terra tão distante daquela onde viviam.

Temas como família e trabalho estão muito presentes ao longo do filme. Desde o início da trama, ainda na Itália, percebemos, sobretudo nos protagonistas, esse sentimento de união entre os irmãos e o patriarca dos Bonanno, e é esse mesmo sentimento que compele Nicola e Andrea a deixarem suas raízes para restaurarem a dignidade da família em falência, mesmo que de um outro continente. Já nos Estados Unidos, sempre juntos, os irmãos se submetem a uma série de empregos que nada se aproximam da sua arte de restaurar prédios antigos na Toscana. Pelo menos até o momento em que o roteiro nos oferece um olhar dos bastidores da Hollywood do início do século XX, durante as gravações do famoso Intolerância, de D.W. Griffith. Os figurantes, as estrelas, as coreografias, os cenários e as câmeras tornam-se, então, pequenas peças que, ao serem postas juntas, montarão a grande obra que é um filme de cinema, do qual os irmãos Bonanno sentem-se orgulhosos por fazerem parte.


Essa fraternidade - que os levara à posição na qual se encontram - é partida, no entanto, pela Primeira Guerra Mundial. O que antes eles partilhavam de tão precioso, como o apreço pela arte e pela honra da família, se despedaça em função do horror de uma batalha que os coloca em lados opostos. Contudo, mesmo lutando por pátrias diferentes, os protagonistas descobrem que há coisas que superam a política fria e impiedosa das guerras, e o cinema, por mais inusitado que pareça naquele cenário de destruição, está presente nesse resgate da dignidade do homem e na lembrança dos valores que realmente nos importam. Portanto, para testemunhar a magia da sétima arte em ação, convidamos a todos para esta última sessão do Ciclo do Metacinema. Não perca!

quarta-feira, 21 de março de 2012

Cine Nostalgia

Nesta terceira semana do Ciclo do Metacinema, no qual exibimos produções que debatem a própria arte de se fazer filmes, convidamos o público em geral a prestigiar o premiadíssimo Cinema Paradiso (1988), escrito e dirigido por Giuseppe Tornatore. Vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1990, o longa trata da magia do cinema e das mais diversas formas pelas quais ele pode alterar variados aspectos de nossas vidas.

A história gira em torno de Salvatore Di Vita, um famoso diretor que vive em Roma na década de 1980. Ao receber, no entanto, a notícia da morte de um velho amigo, Salvatore começa a se lembrar de sua juventude em Giancaldo, na Sicília. Conhecido na época como Totó, o menino descobre sua intensa paixão pelo mundo do cinema e logo trava uma bela amizade com o único projecionista da cidade, Alfredo. A partir de então, o protagonista passa pelas experiências da infância e da adolescência sempre com a marca de seu amor pela arte e pela verdadeira experiência social que era o Cinema Paradiso.

Giuseppe Tornatore nos contempla, portanto, com uma obra com alto grau de nostalgia e até certo ponto de autobiografia. A personagem principal se recorda com emoção de seus tempos de criança numa vila tão pacata e da alegria que encontrou numa amizade tão peculiar e embalada por filmes que tanto significavam para os dois. Nesse sentido, podemos resgatar um pouco do brilho dos olhos de uma criança para quem o cinema não é apenas entretenimento, mas algo de valioso que lhe ajuda a construir um pouquinho da sua realidade e até mesmo de sua personalidade. Esse resgate se prova hoje interessante, já que semanalmente assistimos a uma enxurrada de produções caríssimas que muito impressionam, porém pouco adicionam. Dessa forma, a história de Totó, gravada na cidade natal do próprio Tornatore, é a forma que o diretor encontrou para, ao mesmo tempo, recordar seu próprio caminho e mostrar aos espectadores o impacto que os filmes podem nos causar.



De forma análoga, Cinema Paradiso nos remonta a um tempo em que o cinema era um catalisador das relações sociais. Nós, espectadores do século XXI, podemos nos espantar com as exibições feitas na sala única do Cinema Paradiso. Sessões lotadas, bebês chorando, crianças gritando, homens discutindo, mas todos ali unidos pelo telão que abre uma janela para outro universo. Muito diferente da nossa experiência hoje, de sussurrar para as nossas companhias, rir contidamente e deixar a sala em silêncio ao fim da sessão. Já no filme, observamos que os laços sociais se estreitam naquele espaço fechado, o que torna o Cinema Paradiso basicamente um reflexo das relações que já ocorrem normalmente do lado de fora de suas portas, ou seja, é, de fato, um espaço social. Por isso, para resgatar essas experiências, hoje já um tanto raras, compareça à Escola Normal Superior amanhã, 22, às 18h. Contamos com a sua presença!  

quinta-feira, 15 de março de 2012

Cinema, Amor e Protesto

Após nossa estreia de 2012 na última quinta-feira com o clássico Cantando na Chuva, damos prosseguimento ao ciclo do metacinema com uma produção de 2003 do diretor italiano Bernardo Bertolucci. Trata-se de Os Sonhadores (The Dreamers), roteiro de Gilbert Adair baseado em seu próprio romance Os Inocentes Sagrados. O longa apresenta uma relação com o cinema distinta daquela presente em Cantando na Chuva. Este reflete sobre a sétima arte de um ponto de vista mais histórico - a passagem do cinema mudo para o falado -, já aquele se concentra na magia e na apreciação que ela causa em seus espectadores.

Os Sonhadores se passa na conturbada Paris do final da década de 1960, onde Matthew, um jovem intercambista americano, resolve passar um tempo para aprender a língua francesa. Um de seus hobbies na capital é ir ao cinema, à famosa Cinémathèque Française, na qual ele acaba por conhecer os gêmeos Isabelle e Théo, com quem pode dividir toda sua admiração pelos filmes. Concomitantemente, os protestos estudantis de 1968 em Paris ganham maior intensidade, mas a ligação entre os três torna-se tão forte que estes acabam se fechando para o mundo enquanto vivem sua estranha, e por vezes doentia, amizade.

O longa, através de seus protagonistas, apresenta uma relação muito íntima e apaixonada pelo cinema. Perpassada em vários momentos por recortes de filmes clássicos, a trama nos revela a paixão rebelde de três jovens que vivem o cinema e o trazem para suas vidas como forma máxima de expressão. Há uma fetichização da arte no sentido de que os  três se regozijam nos jogos sexuais de que brincam em torno dos filmes. Ao mesmo tempo, essa obsessão acaba tendo o efeito de afastá-los da realidade tumultuada dos protestos e das lutas sociais que ocorrem imediatamente do lado de fora do mundo praticamente hermético que eles criaram para si.

Dessa forma, Os Sonhadores também nos remete à alienação juvenil ao mesmo tempo inocente, romântica e rebelde. O desejo agudo de desvirtuar os valores tradicionais acaba por alienar uma juventude que se resguarda no ideal recriado das artes. Esquece-se, portanto, que as artes, mesmo sendo um fingimento, são em última instância uma ressignificação do real, uma recriação artística que fala o que a ciência não revela em seu pragmatismo. É claro que os protagonistas realizam uma ruptura, mas os detalhes serão revelados hoje, às 18h, na Sala Maria de Nazareth Xavier, na Escola Normal Superior, com a exibição na íntegra de Os Sonhadores de Bernardo Bertolucci. Não perca!

quarta-feira, 7 de março de 2012

Estreando com um Clássico

O projeto Cine Vídeo UEA - Cosme Alves Netto tem amanhã sua grande estreia no ano de 2012. Iniciaremos mais um semestre letivo com o intuito de divulgar mais amplamente nossa iniciativa e não só enriquecer a rotina acadêmica dos alunos da UEA, mas também colocar à disposição do público em geral grandes produções culturais. Portanto, nossa proposta para este mês de março é o ciclo do metacinema, ou seja, filmes que tratem da própria sétima arte, e o primeiro deles é o clássico dos musicais Cantando na Chuva, de 1952.

Dirigido por Stanley Donen e Gene Kelly (também coreógrafo e ator), o longa nos remete a uma importante era do cinema hollywoodiano. Don Lockwood (Kelly) e Lina Lamont (Jean Hagen) são grandes estrelas de filmes mudos e se deparam com um novo desafio quando a indústria cinematográfica é tomada pelo sucesso dos filmes falados. Seu mais novo longa, no entanto, passa por uma série de problemas, entre eles, a voz irritante da atriz. A única solução encontrada é, portanto, contratar a jovem aspirante Kathy Selden (Debbie Reynolds) para dublar a famosa Lina Lamont, e, de repente, uma produção que parecia fadada ao fracasso adquire grande potencial.

Cantando na Chuva, considerado pelos críticos um dos melhores musicais já feitos, transborda com a riqueza de uma produção bem feita, equilibrando perfeitamente a comédia, o romance e divertidos números de dança. Seu roteiro inteligente carrega todo o bom humor inocente e esperto da era de ouro de Hollywood, principalmente na personagem Cosmo Brown, interpretada pelo também sapateador Donald O'Connor. Quanto ao romance de Lockwood e Selden, pode-se dizer que nossas comédias românticas mais recentes ainda ecoam muito sua simplicidade e deslumbramento. Já as grandiosas sequências de sapateado, na maioria das vezes protagonizada por Kelly e O'Connor, são um prato cheio para os mais tradicionais, já que os musicais mais contemporâneos dão preferência a outros estilos. Aliás, esse é um dos principais apelos de um filme produzido já há sessenta anos: revisitar formas passadas de se fazer cinema.


Diante disso, este ano, as premiações de O Artista, eleito pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas o melhor filme da edição de 2012, parecem estar em consonância com esse sentimento saudosista. Mesmo no  século XXI, no qual houve uma explosão do cinema 3D e do aprimoramento técnico da indústria, ainda cabe, portanto, um olhar para o passado e filmes como O Artista podem ser premiados com um Oscar de melhor filme ao lado de produções mais do que atuais como Crash - No Limite e Guerra ao Terror. Assim, venha também relembrar o passado dessa arte que já nos deslumbra há mais de um século e compareça à Sala Maria de Nazareth Xavier, na Escola Normal Superior, amanhã às 18h para prestigiar o clássico Cantando Na Chuva.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Ciclo de Animações de Dezembro

Chegado o fim do ano, o Cine Vídeo UEA iniciou mais um ciclo de produções. No último mês de dezembro tivemos o prazer de oferecer ao público três exemplares do gênero animação. No dia 1, a obra exibida foi Mary e Max, do australiano Adam Elliot e muito aclamada pela crítica; no dia 15, foi a vez de Waking Life, de Richard Linklater e produzido com a técnica de rotoscópio. O gênero, comumente ligado ao público infantil, ultrapassa barreiras etárias e é capaz de encantar públicos de todos os cantos do mundo, por isso não podíamos deixar de incluí-lo em nossas sessões.

Mary e Max, de 2009, se utiliza da popular técnica stop-motion, na qual uma sequência rápida de imagens cria no espectador a ilusão de movimento. A obra nos apresenta a agridoce história das personagens que dão título ao filme. Ela, uma garota australiana de 8 anos que vive com os pais negligentes; ele, um americano autista de 44 anos que mora sozinho em seu apartamento. Essa aparente incongruência entre os dois, no entanto, se desfaz a cada minuto do longa, no qual percebemos que as visões peculiares de uma criança e de um autista ajudam as duas personagens a entenderem o estranho mundo que os cerca. Os tons marrons e pastéis da vida de Mary são muito mais toleráveis para a menina quando suas dúvidas mais íntimas são partilhadas com seu amigo dos Estados Unidos. Já os tons cinzas e escuros da Nova Iorque de Max se contrapõem à sua alegria de ter pelo menos uma amiga. Enfim, a trama é um bom convite para repensarmos a realidade que queremos à nossa volta, desde aspectos emocionais até aspectos econômicos, e é nesse sentido que a obra é tão valiosa: é na simplicidade de uma amizade infantil que podemos achar a solução para tudo que nos prejudica.

Waking Life, de 2001, é um ótimo exemplo de como as animações podem contribuir não só esteticamente, mas também para reforçar o argumento de um filme. O longa foi inteiramente filmado com atores e posteriormente levado para o estúdio, a fim de que um grupo de artistas desenhasse sobre cada quadro. Essa técnica do rotoscópio se une harmonicamente ao tema proposto na obra: a natureza dos sonhos e da vida. A realidade dos atores e dos ambientes urbanos se confunde com as cores e as linhas desenhadas pelos artistas e criam um efeito único no espectador, o qual aceita a incerteza de estar assistindo a um sonho, à realidade ou aos devaneios do protagonista. Através de um desfile de discursos das mais diversas naturezas, somos postos diante de questões importantes como o existencialismo, o livro arbítrio e até a política, os quais, embalados por um estética colorida e cheia de movimento, constroem, em última instância, um longa complexo e repleto de camadas.

Com essas animações, concluímos nossas atividades no ano de 2011, mas com muitas ideias de novos ciclos para 2012. A arte do cinema, muito mais que mero entretenimento, é uma das formas de interpretarmos nossa realidade e até mesmo dar voz às nossas mais íntimas aspirações, por isso, de maneira alguma se esgotará. Dessa forma, pode-se esperar que o Cine Vídeo UEA - Cosme Alves Netto retomará suas atividades em março com muito mais títulos valiosos para dividir com o grande público.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Caos e Revolta

A quarta e última semana do ciclo de cinema japonês do Cine Vídeo UEA traz ao grande público a produção nipo-francesa Ran, do aclamado Akira Kurosawa. O filme se passa na Era Sengoku (a grosso modo do século XV ao século XVII), na qual o Japão viveu um período de vários conflitos militares que precederam a eventual unificação do país. A história gira em torno do guerreiro e líder de seu clã Hidetora Ichimonji, que resolve abdicar de sua posição em favor de seus três filhos, os quais, por sua vez, herdariam a administração  do clã e seus castelos. No entanto, o primeiro filho, Taro, influenciado por sua esposa, resolve trair a confiança de seu pai e acaba expulsando-o de suas próprias terras, assim lançando a semente de um confronto muito maior que colocará em risco a sobrevivência dos Ichimonji.

"Ran" em japonês significa "caos" ou "revolta", o que acaba se tornando uma síntese precisa da obra de Kurosawa. Com o roteiro baseado nas histórias de Mori Motonari, figura emblemática da história japonesa, e na própria tragédia Rei Lear de Shakespeare, o diretor nos transporta para um período quase que desconhecido para nós ocidentais, preocupados demais com o fim da Idade Média e com o Renascimento na Europa nesse mesmo período. No entanto, em meio a um ambiente onde honra e valores caminham entrelaçados com traição e ganância, somos também presenteados com belíssimas paisagens japonesas, que contribuem de forma marcante para o valor estético e até mesmo narrativo da obra.

Akira Kurosawa, portanto, deixa sua imensa marca no gênero jidaigeki (filmes de época japoneses) com uma grande produção de U$12.000.000,00 que agradou críticos de todo o mundo. Muito elogiado por sua direção de arte no tratamento das paisagens e da trilha sonora, o filme ainda foi indicado a três categorias no Oscar e ganhou a estatueta de melhor figurino. Trata-se, assim, de um importante nome do cinema japonês, pois une competentemente aspectos técnicos com uma história que trata de temas não só orientais, mas também universais como, lealdade, honra e até niilismo. Dessa forma, não perca nesta quinta-feira, às 17h, no auditório da UEA-ENS o encerramento deste interessante ciclo. Contamos com a sua presença!

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Drama Erótico, Não Pornográfico

Após visitar gêneros como o anime e a comédia nas sessões anteriores, nesta terceira semana do ciclo de cinema japonês, o Cine Vídeo UEA realizará a exibição do polêmico O Império dos Sentidos, dirigido por Nagisa Oshima. Baseado numa história real, o filme franco-japonês de 1976 trata de trazer para as grandes telas um acontecimento que deixou a mídia e a sociedade japonesa dos anos 1930 em polvorosa. Sada Abe (Eiko Matsuda) é uma ex-prostituta que começa a trabalhar como empregada em um estabelecimento de boa reputação em Tóquio. Assediada por seu patrão, Kichizo Ishida (Tatsuya Fuji), a jovem cede aos desejos do mesmo e dá início a um relacionamento regido pela luxúria e pela obsessão, o qual resulta em consequências catastróficas. 

As rígidas leis de censura do Japão na época impediram a produção integral da obra da maneira em que Oshima desejava. Assim, as filmagens não editadas foram enviadas para a França, onde seriam devidamente trabalhadas. Embora originalmente produzido para exibição em larga escala, devido ao seu forte conteúdo de sexo explícito não simulado entre os atores, o filme foi em um primeiro momento censurado em diversos países como Estados Unidos, Alemanha e o próprio Japão, mas hoje já é visto de outra forma pelos críticos de cinema. Vale ressaltar que há uma diferença entre a pornografia e o conteúdo erótico, pois este tem objetivos artísticos que se estendem além dos daquela.

Instigante pela veracidade dos fatos ali encenados, O Império dos Sentidos explora, muito além do sexo, o papel da obsessão e da possessividade dentro de relações doentias. Ao embarcar nessa paixão além da sanidade, Sada e Kichizo, sem saber, estão selando seus próprios destinos, pois além de alterar a visão que a sociedade tem do casal ao testemunhar a leviandade com que levam seu relacionamento, os dois mergulham numa curva de decadência que não termina nada bem para ambos. Além disso, embora o sexo retratado na obra seja um tanto quanto chocante para os mais acostumados ao cinema tradicional, é possível vislumbrar sua função dentro da significância da obra numa análise mais posterior. Portanto, é necessário que analisemos certos filmes do ponto de vista da quebra de tabus, já que uma sociedade mais aberta ao debate franco e respeitoso tem mais chances de gerar cidadãos mais bem informados e dotados de um senso crítico menos ideológico e mais apurado.

sábado, 12 de novembro de 2011

Ohayo!

Dando prosseguimento ao ciclo de filmes japoneses inaugurado na semana passada com o anime O Túmulo dos Vagalumes, o Cine Video UEA dá um salto de meio século para exibir Bom Dia, comédia de 1959, dirigida por Yasujiro Ozu. Renomado por obras como Era Uma Vez em Tóquio, Ozu é uma das grandes referências do cinema de seu país, famoso, entre outras coisas, por seu estilo peculiar no uso da camêra e por não seguir os modelos de produção hollywoodianos. Na obra em questão o cineasta retrata o dia a dia dos moradores de um pequeno conjunto habitacional de uma cidade japonesa, dando foco às travessuras e desejos das crianças e a muitas vezes complicada relação entre vizinhos.

Esse olhar infantil é parte indissociável tanto do elemento cômico quanto da mensagem fundamental por trás da obra. As crianças estão diretamente ligadas ao desenrolar da história e suas ações acabam afetando os relacionamentos dos adultos de uma forma que eles mal imaginam. Aliás, essa relação entre a inocência juvenil e a experiência intolerante nos oferece uma questão linguística interessante. Os jovens, por ainda não estarem totalmente a par das convenções sociais, falam o que pensam do alto de sua sinceridade, assim, lançam suas dúvidas sobre a interação dos adultos ao verem que estes muito se cumprimentam com educação e civilidade, mas não dizem realmente aquilo que deve ser dito. Pelo contrário, essa incapacidade de transmitir o verdadeiramente essencial acaba levando-os ao desentendimento e às rixas mesquinhas de vizinhos.

Igualmente cômica são essas sequências em que vemos a articulação da vizinhança diante de um simples problema de fácil solução. Mesmo a distribuição geográfica das casas do conjunto contribuem para o sentido de que a proximidade e a aglomeração urbana aproximam as pessoas. O que nos leva a dois lados de uma mesma moeda. Primeiro, essa distância diminuta pode reforçar a ideia de que os problemas de um não são independentes dos problemas de todos, por isso, ao debatermos juntos determinado assunto, a solução pode se dar como um benefício geral. Segundo, essa vizinhança mais íntima pode levar à invasão de privacidade tão bem apresentada no filme, no qual nossa esfera de interferência extrapola nossas próprias paredes e se sobrepõe à dos nossos vizinhos. A solução não deve ser fácil, mas parece estar no equilíbrio.



Diante disso, são contrastantes as iniciativas de crianças e adultos. Estes agem baseados em puras suposições escondidas pelo véu da civilidade, o que torna suas relações um tanto quanto voláteis. Já aquelas se juntam num esforço obstinado para correrem atrás daquilo que lhes interessa, sejam quais forem as consequências de seus desejos sinceros. Portanto, Bom Dia é mais que uma comédia que retrata a vida cotidiana, com seus casos triviais e diversões infantis. É uma obra que nos põe cara a cara com questões importantes de uma vida em sociedade, já um pouco subestimada por seu caráter cotidiano.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O Cine Vídeo UEA Vai para o Oriente

Encerrado o ciclo de produções brasileiras do mês passado, o Cine Vídeo UEA vem com prazer anunciar o início de um novo ciclo para o mês de novembro. Os filmes nacionais dão lugar a obras provenientes do outro lado do mundo, da terra do sol nascente. O cinema japonês é um dos mais antigos do mundo e um dos de maior expressão. Em 2009, segundo pesquisa publicada em um site do governo australiano, o Japão ocupou a quarta posição em uma lista de países que mais produziram filmes naquele ano. Variando desde gêneros históricos até os populares animes, a indústria cinematográfica japonesa tem muito a nos oferecer, especialmente porque suas produções não chegam ao nosso conhecimento tão facilmente. Dessa forma, exibiremos nesta quinta-feira, 3, O Túmulo dos Vagalumes, escrito e dirigido por Isao Takahata.

A animação nos traz a difícil história de dois órfãos no Japão do final da Segunda Guerra Mundial. Após perder sua mãe e seu lar em um bombardeio repentino, Seita se vê obrigado a tomar conta de sua irmãzinha, Setsuko. Para isso, não deve apenas encontrar abrigo e comida, mas também um lugar em que possam achar ao menos um resquício de felicidade em um mundo onde o terror da guerra influencia diretamente a vida de todos.  Produzido em 1988, o anime é baseado no romance epônimo semiautobiográfico de Akiyuki Nosaka, escrito com a intenção de ser um pedido de desculpas à irmã falecida do autor.

Embora a guerra seja o pano de fundo da história, sua importância nos atinge de forma oblíqua, pois a obra explora com maior preponderância o valor da esperança e da perseverança em um ambiente onde a vida pode ser tão passageira quanto a de um vagalume. Mesmo sem ter o que comer, ou onde morar, os protagonistas nunca deixam de seguir adiante e enfrentam as adversidades de uma vida miserável com um estoicismo admirável, despertando uma agonia agridoce até nos mais insensíveis dos espectadores. Dessa forma, mesmo o final já antecipado no início do filme não diminui de forma alguma a lição de superação que o autor nos oferece.


O Túmulo dos Vagalumes abre, portanto, nosso ciclo de novembro concentrado no cinema japonês. Nas próximas semanas ainda exibiremos outras grandes obras como Bom Dia, comédia dos anos 50 dirigida por Yasujiro Ozu; O Império dos Sentidos, coprodução nipo-francesa de 1976 e Ran, drama de guerra baseado numa peça de Shakespeare e dirigido pelo famoso diretor Akira Kurosawa. Assim, vários serão os gêneros exibidos, os quais, embora não consigam cobrir todo o escopo das produções japonesas, certamente representarão um pouco de sua grandeza e genialidade. Contamos, então, com a presença de vocês todas as quintas de novembro às 17h no auditório da Escola Normal Superior da UEA!
"Por que os vagalumes morrem tão cedo?"

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Propaganda Revolucionária

Para fechar o mês de outubro, o Cine Vídeo UEA convida o grande público para prestigiar a obra de Aurélio Michiles, Gráfica Utópica. O documentário foi produzido a partir de uma exposição montada pelo CCBB, Centro Cultural Banco do Brasil, na qual a arte construtivista foi exibida. O construtivismo surgiu após a Revolução Russa de 1917 como forma de propaganda, embora, posteriormente, tenha influenciado outras formas de arte como o cinema, a poesia e o teatro. Nossa sessão de hoje ainda contará especialmente com a presença do próprio idealizador, que explanará acerca de seu processo criativo quando da realização do filme.

Gráfica Utópica explora o impacto e o valor que a vanguarda russa em questão teve dentro de um panorama artístico mundial, bem como na esfera da arte brasileira, mostrando as produções de artistas como Eisenstein e Vertov. Além disso, os depoimentos - de Evandro Salles, curador do CCBB, dos diretores José Celso Martinez e Cacá Rosset e do músico Arnaldo Antunes - demonstram como o construtivismo, embora suplantado pelo realismo socialista de Stálin, foi de grande importância para diversas vertentes da arte. Portanto, compareça hoje, 27, ao auditório da Escola Normal Superior às 17h e prestigie o cinema amazonense.    

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Incrivelmente Abalável

Seguindo a linha das produções brasileiras, o Cine Vídeo UEA tem o prazer de informar ao público que o filme desta semana é Cronicamente Inviável, do diretor Sérgio Bianchi. O longa é composto de várias seções que em algum ponto se entrelaçam para formar um mosaico nada satisfatório acerca dos mais variados aspectos da realidade brasileira da virada do século, a qual obviamente não mudou muita coisa uma década depois. Retratando a história de várias personagens e viajando de norte a sul, Bianchi chega até a chocar os mais desprevenidos com a agudeza de suas cenas, as quais desvelam diante dos nossos olhos coisas que muitos de nós preferem não ouvir ou fingir que não lhes diz respeito. 

Muitos são os pontos de vista e as peças que formarão essa colcha de retalhos preocupante. Luiz (Cecil Thiré), o qual tira proveito de seus empregados, é dono do restaurante que ao mesmo tempo faz a ligação e causa o choque de realidade entre as personagens. Amanda (Dira Paes) é sua ríspida gerente que busca o lucro até mesmo através da exploração de necessitados. O casal Alice e Carlos (Betty Goffman e Daniel Dantas), por sua vez, representam a classe média-alta brasileira e trazem à discussão conceitos como caridade e culpa numa sociedade desigual, além da suposta trambicagem inata da tradição cultural do povo brasileiro. Já o pesquisador Alfredo  (Umberto Magnani) parece ser o único que realmente tem uma visão mais apurada do mundo que o cerca e aparenta querer mudá-lo, no entanto, percebemos que até os mais esclarecidos não se escusam de recorrer a  alternativas de moral questionável em proveito próprio. Finalmente, também nos é oferecido o ponto de vista das classes menos favorecidas através de personagens como Ceará (Leonardo Vieira) e Adam (Dan Stulbach), que se vêem imersos em um meio tão hostil e precisam descobrir como se adaptar a ele.

Apesar de pecar em certos aspectos técnicos como fotografia, a grande significância da obra se encontra nesse aspecto mais explícito de denúncia, no trato direto dos nossos problemas, sem a maquiagem que disfarça de certas produções globais. Cronicamente Inviável nos força, de maneira quase violenta, a prestar um pouco mais de atenção em questões como identidade cultural e dominação de todos os tipos no nosso cotidiano. Na tentativa de proporcionar ao espectador um panorama mais abrangente, a obra acaba nos convencendo quanto ao título que recebeu. Enquanto continuarmos com o status quo em que nos encontramos, segundo o qual a dignidade do homem está sujeita ao valor econômico que este representa perante a sociedade, teremos ainda diversas barreiras para superar rumo a uma sociedade mais honesta e mais humana, como sugere o desfecho da importante história de Sérgio Bianchi.


"A felicidade é uma perfeita forma de dominação autoritária."

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Ralo Abaixo

Primeiramente gostaríamos de agradecer a presença de vocês na nossa sessão de estreia na última quinta-feira, 6, no auditório da Escola Normal Superior. Esperamos que tenham gostado do curta Revivendo Cosme e do longa O Beijo da Mulher Aranha. Nossa programação de outubro já foi fechada e é com grande entusiasmo que anunciamos que às 17h de hoje, 13, exibiremos a aclamada obra do diretor brasileiro Heitor Dhalia, O Cheiro do Ralo, protagonizada por Selton Mello e vencedora de prêmios internacionais.

O filme nos conta a história de Lourenço, dono de um negócio que compra objetos de pessoas com problemas financeiros. Extremamente egocêntrico em todas as suas relações, o protagonista, supostamente influenciado pelo cheiro do ralo de seu banheiro, passa da frieza com que trata seus clientes à diversão de tirar proveito dos mesmos. Lourenço, no entanto, é pego de surpresa quando começa a perder o controle sobre aqueles que explora e de repente aquilo que lhe dava prazer pode acabar selando seu destino.

Apesar de tratar de temas mais sérios, como exploração sexual e desumanização, o longa também nos proporciona momentos de humor. O protagonista, em seus devaneios diários, não se demonstra muito politicamente correto e suas opiniões e sonhos excêntricos acabam despertando uma certa empatia no público devido à estranheza de seus atos. Em contrapartida, através de atitudes moralmente questionáveis, a personagem desenvolve também uma das funções principais da obra: estimular o pensamento dos espectadores quanto às relações de poder no nosso dia-a-dia e até que ponto elas podem nos influenciar. Nesse sentido, alternando entre o cômico e o imoral, a interpretação de Selton Mello é vital para a realização da obra e ele a faz de forma brilhante.


Em última instância, O Cheiro do Ralo nos convida a uma análise do nosso lado mais obscuro e perverso, de como ele faz parte da nossa natureza. A alegoria do ralo, dessa forma, desempenha uma função instigadora. Através dela, percebemos como podemos ser influenciados por nossos pensamentos mais egoístas e negativos e de que maneira alteramos nossa realidade à medida que damos ouvidos a eles. Ao ceder à influência do “cheiro do ralo”, acabamos tendo que pagar o preço das conseqüências, as quais podem ser muito diferentes das que tínhamos em mente, como foi muito bem mostrado na obra de Heitor Dhalia. Exibiremos, portanto, uma obra que foge bastante dos padrões temáticos mais recorrentes no cinema nacional e que, por isso, merece igual destaque. Assim, reiteramos nosso convite e contamos com a sua presença hoje às 17h no auditório da Escola Normal Superior.
"O poder é afrodisíaco. O cheiro me dá poder, o cheiro e o olho"

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Opressão, Sonhos e Tolerância

Lançado em 1985, o longa O Beijo da Mulher Aranha, de Héctor Babenco, foi um marco do cinema independente. Sua história se passa em uma prisão em São Paulo - embora pudesse ser qualquer cidade latino-americana - onde dois homens completamente diferentes dividem uma cela. Um deles, Luis Molina, interpretado por William Hurt, é um homossexual afeminado que reconta um de seus filmes favoritos a fim de esquecer, mesmo que temporariamente, a clausura e o ambiente opressor em que se encontra. Já o outro, Valentin Aguerri, personagem de Raul Julia, é um prisioneiro político fiel a seus ideais e disposto a dar a vida pelo que acredita. Tal encontro de figuras tão distintas é o início de uma amizade inesperada, enriquecedora tanto para as personagens como para o público.

A narrativa central protagonizada pelo par de detentos é frequentementre entrecortada pela história contada por Molina, criando, assim, um efeito desconcertante na comparação de realidades tão inconciliáveis. Em meio ao horror da prisão, onde os homens são sujeitos a péssimas condições de sobrevivência e até à tortura, o espectador é transportado até elegantes salões e prédios da Paris ocupada pelos alemães na Segunda Guerra Mundial, onde uma elegante história de amor se desenrola como fachada para a propaganda da ideologia nazista. A fotografia, nesse ponto, merece ser especialmente mencionada no contraste entre as duras cores da crua realidade do aprisionamento e os tons sépias majestosos do sofisticado filme de Molina.

Além dos artifícios narrativos e da fotografia, vale também apontar as atuações como um dos pontos fortes do filme. Raul Julia consegue interpretar na medida certa um revolucionário enfurecido com a perseguição política que sofre, mas ao mesmo tempo sensível, embora não imediatamente, aos medos e aspirações de seu companheiro de cela e em última instância até aos seus próprios. Em contrapartida, vemos William Hurt dar vida a um homem frágil e sonhador, o qual afirma ter nascido apenas acidentalmente com o sexo masculino e que aprendeu a viver em uma sociedade opressora. Hurt ainda ganhou por esse papel o Oscar, além de outras premiações, de melhor ator, tornando-se o primeiro a receber o prêmio da Academia por uma personagem abertamente homossexual.


O Beijo da Mulher Aranha foi indicado a vários prêmios e foi sucesso de crítica. Marcante não só por sua técnica e atuação, mas também por seu oportuno momento histórico, o longa foi lançado no período após as grandes ditaduras militares na América Latina e mostra como um governo repressor pode influenciar a vida daqueles que oprime. Para além da questão política, no entanto, o filme é um verdadeiro exemplo de como duas pessoas diferentes podem alcançar um entendimento mútuo e até sentimentos mais profundos. Acaba se tornando uma lição de tolerância que nos diz respeito até os dias de hoje, além de nos lembrar da importância dos sonhos em um quotidiano que muitas vezes nos assusta e desencoraja.
"Por que eu pensaria na realidade neste buraco fedido? Por que ficaria mais deprimido do que já estou?"